Uprooted, suas maravilhas e problemas

Uprooted-cover

Uprooted é o queridinho das premiações de fantasia do ano. Foi nomeado ao Hugo como Best Novel (melhor livro), ganhou o Nebula de Best Novel e já está até sendo transformado em filme.

É fácil ver o motivo. A Naomi Novik não é novata e a experiência que ela ganhou desenvolvendo a saga Temeraire se apresenta em todos os elementos do livro. O enredo é emocionante, o conflito é claro e instigante, o cenário é charmoso e induz àquele senso de maravilha que deveria ser padrão em livros de fantasia, só para depois mostrar um horror de congelar o sangue. É um livro realmente bom, cheio de magia e aventura.

Em Uprooted, conhecemos Agnieszka, uma jovem camponesa de um vilarejo na fronteira com a misteriosa Floresta, uma entidade viva e furiosa (pense em Evil Dead). Como a Floresta só é contida pelos esforços do Dragão, um mago poderoso e assustador, os vilarejos da região são obrigados a lhe pagar tributos, como grãos, produtos frescos e uma jovem a cada 10 anos.

Você foi sorteada para servir a Baba Yaga. Boa sorte!

É claro que Agnieszka é selecionada como a serva pessoal do Dragão, que ela não sabe o que isso significa e que passa um bom pedaço do livro com medo dele. Isso vem com o modelo da história, a coisa do conto de fadas (alguém aí conhece A Leste do Sol, a Oeste da Lua?). Mas o que me perturba é que o medo dela é bem fundado: em um cenário onde mulheres tem direitos e responsabilidades, em nenhum momento do início do livro o Dragão aparenta considerá-la um ser humano, uma pessoa com sentimentos que foi arrancada da sua vida normal e agora não sabe mais nada. Além disso, ele a maltrata. Insulta, pune, grita e ameaça, o tempo todo esperando que ela entenda o que ele quer sem que ele peça, que saiba o que ele sabe sem explicar. Tudo isso é de acordo com o tipo de conto de fadas sendo emulado, mas isso não muda o fato de que a atitude dele é simplesmente abusiva*.

E o livro é contado em primeira pessoa. Enquanto tudo isso está acontecendo, estamos na cabeça de Agnieszka, vendo o quanto ela se esforça, o quanto sofre e não entende. Ao mesmo tempo, estamos vendo ela lentamente se apaixonar pelo Dragão. O próprio abusador. O cara que fez ela pensar em suicídio algumas páginas antes. Infelizmente, esse é um clichê comum em livros Young Adult. A ideia de que, uma vez você saiba quais as razões pelas quais alguém estava sendo abusivo, o abuso deixa de ser a parte importante, porque o amor supera tudo. Eu discordo veementemente desse clichê.

Boa prosa ganha de conteúdo problemático

Felizmente, depois do primeiro pedaço do livro é possível esquecer por um tempo do enredo romântico, fato que eu só tive a oportunidade de descobrir porque a prosa da autora é feita de felicidade e gatinhos no sol. Eu nunca tinha lido nada da Naomi Novik, então não estava preparada para sua narrativa suave, com tom de história ao pé da fogueira, cheia de descrições e personagens vívidos. Ela é uma mestre e esse livro, problematizações a parte, prova isso. Acima de tudo, quando a história engrena Agnieszka demonstra ser uma protagonista maravilhosa, divertida, leal e corajosa. Acima de tudo, as coisas que ela conquista e os riscos que ela toma são por motivos pessoais não ligados a romance. Ela é a sua própria pessoa e a autora deixa isso claro, da maneira como a magia de Agnieszka funciona até as soluções que ela encontra para o problema da floresta. É como se ela fosse ao mesmo tempo Vasalisa e a boneca, mas fosse aos poucos se tornando uma Baba Yaga boazinha. Isso torna a história um belo conto de fadas para o público moderno. A não ser por aquele problema que eu mencionei.

Eu sinto a necessidade de deixar clara a mensagem que o enredo romântico desse livro vende, mesmo odiando falar sobre o enredo em resenhas, porque eu sei que muitas outras mulheres tem dificuldade em ler histórias com essa mensagem e porque esse é o grande problema do livro. De resto, é uma aventura incrível, cheia de magia, intriga e árvores assassinas, que melhorou o meu humor num momento que eu precisava muito.

Nota: 🍁🍁🍁🍁🍁 de 5 arvorezinhas assassinas.

Acompanhe com: um bom dia de sol e seus gatos/cachorros preferidos deitados na volta, porque esse livro é um deleite.

* Se você quer ler uma problematização mais completa desse livro eu recomendo fortemente esse artigo da Foz Meadows.

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