Last Song Before Night e o problema de usar clichês

Last Song Before Night é o romance de estréia de Ilana C. Myer, um daqueles livros que eu comprei porque li um Big Idea em que a autora descrevia a inspiração para a história, e parecia ser algo que eu gostaria muito de ler. Infelizmente, o livro é bem diferente do que ela deu a entender no texto.Last-Song-Before_Night_Ilana-Myers

Não é como se fosse um livro ruim. Não é bem isso. A autora escreve bem e tem controle o bastante das ferramentas de narrativa para que a história tenha um enredo e passo aceitáveis. Mas o problema está justamente nessa palavra: aceitável. Isso é linguagem culta para “meh”, e ninguém quer que o seu épico sobre o significado da arte seja considerado “meh”. Então é claro que alguma mensagem se perdeu no ruído, ou é claro que esse livro não é para mim. De qualquer maneira, eu passei mais tempo pensando no que eu não gostei do livro do que no que eu gostei, tentando entender onde foi que a história me perdeu.

A história começa com bailes e política, enquanto os poetas Lin e Leander, Darien e Marlen se preparam para competir em um grande concurso de música. Não demora muito tempo até que um misterioso bardo Valanir Ocune apareça trazendo notícias perturbadoras e a missão dos nossos heróis: encontrar o caminho perdido para o Otherworld. Busca, essa, que o poeta mais poderoso do reino, aquele que tem os ouvidos do rei, vai tentar impedir. Infelizmente, depois disso a história perde um pouco do gás e vira uma jornada rural como a de vários outros livros, culminando no final que todos esperam.

O livro é interessante e tem algumas frases ótimas, um sistema de magia intrigante (e que poderia ser melhor desenvolvido, mas eu sempre quero saber mais sobre a magia) e um cenário que poderia ser um pouquinho mais audacioso. A história, por outro lado, é aquela clássica jornada épica para salvar o mundo dos planos nebulosos de um vilão mau-porque-sim. Para isso temos: um Velho Conselheiro, sua Escolhida, um Lorde Carismático Bonito Bom Em Tudo e seu amigo Lorde Babaca, uma Bela Heroína Inocente e seu amigo de infância O Bom Moço. Digo assim, tudo com maiúsculas e links para o TVtropes, porque ela pegou os personagens prontos desse caldo grosso que chamamos de literatura fantástica e só aplicou a curva de personagem padrão. Nenhuma mudança, nenhuma tentativa de tornar mais ou menos realista, apenas o padrão.

É um tudo tão ostensivamente clichê que eu passei metade do livro acreditando que a qualquer momento tudo ia desandar em metalinguagem e os personagens começariam a trocar de papéis. Mas isso não aconteceu. A história que foi anunciada, a de que existia um grande mal e de que os heróis eram as únicas pessoas capazes de impedi-lo, sem muitas explicações de como ou porquê? Exatamente o que é entregue.

Clichês não são o problema

Histórias usam clichês (ou tropos) o tempo todo para garantir que o leitor não se preocupe com determinados pontos menos importantes. O cenário em The Deed of Paksenarrion, por exemplo, é um mundo de fantasia genérico. Mas isso não torna a história da Paks menos interessante, apenas ajuda a focar no que importa, a maneira como aquela decisão de sair de casa e virar soldado a transforma. Os personagens de Mistborn: o Império Final começam todos como integrantes arquetípicos de uma equipe de ladrões, assim o leitor pode se acostumar com o cenário antes de se preocupar com a personalidade dos integrantes do grupo (e com o que eles estão realmente fazendo). O enredo de Neverwhere é formado por algo que o próprio Neil Gaiman chama de “cupons de enredo” (junte todos e troque por um final), mas essa também é a parte menos importante do livro, que conta com personagens instigantes e um cenário encantador.

Perceberam onde eu quero chegar? O problema de Last Song Before Night, ou pelo menos o problema que eu tive com o livro, é que não existe nada além dos clichês utilizados. Tropes all the way down. Mesmo com os momentos de beleza que a autora sabe escrever, mesmo que a história tenha sido contada de maneira eficiente, é complicado exigir que o leitor se importe com algo que já viu tantas vezes antes.

Eu poderia elogiar a prosa da Ilana C. Myer, que em tantos momentos levantou o seu tema sobre o relacionamento entre arte e verdade pessoal (os heróis são músicos! O vilão é um censor! Dizer mais do que isso é spoiler!), ou dizer que os momentos brilhantes do livro indicam que, sim, ela pode vir a ser uma das pessoas que vai lembrar os leitores de fantasia de que o gênero é mais do que grimdark. Mas, mais importante do que escrever um bom tributo à fantasia dos anos 80, é escrever um livro relevante no cenário de fantasia atual. E esse livro não é nada relevante. Mas eu acredito que o próximo, ou o depois dele, pode ser. Ela definitivamente tem futuro.

 

Rating: 🎸🎸 de 5 instrumentos musicais, porque, para um livro que promete ser sobre bardos, Last Song tem uma incrível falta de musicalidade.

Acompanhe com: muito chocolate, para ajudar no sabor. No meu caso era meio-amargo 70%.

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