Empire Ascendant, uma fantasia tão dark que parece horror

Empire_Ascendant_Kameron_HurleyEmpire Ascendant, da autora Kameron Hurley, é o segundo livro da trilogia Worldbreaker, que começou com Mirror Empire e também o ponto em que as coisas começam a ficar sangrentas. Se no primeiro livro fomos apresentados aos personagens, grupos e civilizações envolvidas nisso que é uma imensa guerra interdimensional, nesse livro temos um vislumbre de como tudo vai ficar pior antes de melhorar. Se melhorar. Deve melhorar, certo?

Tudo dá errado da maneira mais sangrenta o possível

Como um bom segundo livro de série, Empire Ascendant pega tudo que os personagens construíram no primeiro livro da série e destrói, ou, pelo menos, desmancha para construir outra coisa com as peças. São horrores sucessivos e não apenas por se tratar de uma guerra. Não existe um local seguro, não existe um personagem que não esteja em risco, não existe saída, apenas o horror sucessivo de ver alianças que só podem dar errado, valores e pessoas sacrificados por nada, sociedades que funcionam na base do medo, crueldade, preconceito, escravidão, abandono e abuso. Isso é bem mais horrível do que gore e pedaços de corpos voando. E tem gore e pedaços voando pra dedéu.

É como se esse livro tivesse sido escrito com a intenção de levar ao limite aquela máxima grimdark de que “tudo dá errado da maneira mais sangrenta o possível”. Não é uma vitória pírrica do segundo ato, é uma derrota anunciada, porque não tem como alguém ganhar essa guerra.

É um livro incrível, mas ao mesmo tempo não é tão bom. O enredo é complexo, com diversas facções com objetivos diferentes, mas esses objetivos se tornam impossíveis no ar geral de apocalipse. Parte da maldade da Kameron Hurley é a maneira como ela deixa que o leitor tenha esperança de que algum plano funcione antes de mostrar como nada poderia dar certo. Os personagens tentam outra coisa, ou fogem e tentam se reagrupar em outro lugar, e o leitor passa o livro inteiro em desespero porque sabe que não existe lugar seguro. Saiduan caiu, Dorinah e Dhai estão sitiados, e Tordin, a que somos apresentados nesse livro, não é o melhor lugar do mundo (especialmente para mulheres). E mesmo que alguém conseguisse achar um lugar para fugir de tudo, ainda existem as ameaças representadas pela abertura generalizada de portais dimensionais que a ascendência da estrela Oma traz e o que quer que seja que a Imperatriz de Dorinah está fazendo. Muitas coisas acontecem, todas terríveis, ao ponto de que eu fico me perguntando se as pessoas não deveriam apenas se atirar em uma árvore canibal do mal e acabar de vez com esse sofrimento.

Os personagens são multifacetados e mostram aprender com os erros, mas isso não faz diferença porque todo mundo sofre, tem partes do corpo removidas ou aleijadas e passa o livro inteiro apanhando. Tem uma ação de heroísmo inesperada, por parte de uma personagem especialmente truculenta, que me deixou entre um sorriso e um grito de raiva, porque era o heroísmo mais idiotamente desnecessário, mais inútil, dentre todos possíveis, mas ainda assim mostrou uma mudança, um raio de sol. Para nada.

E esse é o ponto vital da coisa. O livro é interessante e eu gostaria muito de saber o que o pessoal da realidade número 3 está fazendo de verdade ou como os insetos malignos entram na história, mas o enredo original só me enche de horror e desesperança, porque já ficou claro que os Tai Mora são o menor dos problemas, mas não participariam de uma solução. Então como vai haver um futuro? Como resolver os problemas apresentados se as peças da solução estão espalhadas e desinteressadas em colaborar? Isso indica a possibilidade de uma resolução pouco satisfatória, um final ingrato. Eu confio na autora e sei que vou ler o final da série, mas acho que vou precisar de um chazinho de cidreira para acompanhar, porque meus nervos não aguentam.

Rating: 🍷🍷🍷🍷 de 5 taças de vinho, porque é a quantidade necessária para superar o horror, o horror.

Acompanhe com: uma bebida mais forte, porque eu não recomendo comer nada enquanto estiver lendo este livro.

 

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